A rotina de um gay em Guimarães

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Numa cidade abraçada por muralhas chegou a hora de aprendermos a construir mais pontes. Como um cidadão vimaranense nunca pensei que esta cidade seria o meu futuro, nunca olhei para ela como um lar onde pudesse criar a minha família ou simplesmente ser eu. Como um homem gay todas a decisões nesta cidade têm que ser tomadas com precaução. Lembro-me, na minha adolescência, de pensar que o meu casaco era demasiado extravagante para sair com ele, era demasiado paneleiro. Não se sintam chocados por um homem homossexual se auto-intitular como paneleiro. Este termo teve que ser reclamado pela nossa comunidade depois de constantes abusos verbais. Eu não iria permitir que essa palavra me magoasse mais.

Não sei se falo pela comunidade inteira ou só por mim, contudo não pretendo cometer o erro de generalizações ou pelos menos vou tentar não o fazer. Claro que o primeiro assunto que referi foram as roupas ousadas e como toda a gente sabe todos os homossexuais têm um curso de moda ainda no útero. Contudo é um assunto com uma certa relevância pois mostra a quão condenadas são as nossas ações. Eu sempre vesti o meu casaco favorito mas sempre que saía à noite só me atrevia a permanecer no El Rock ou no Coconuts. Claro que para fazer a travessia entre estes dois bares era sempre complicado mas se de um lado da praça alguém vociferava a palavra paneleiro, no outro lado há sempre um shot para processar a humilhação.

A primeira vez que senti a humilhação de ser homossexual foi no meu sétimo ano, quando a minha professora de matemática me viu numa aula de educação física a jogar à bola. Quando cheguei à aula dela, não hesitou em dizer que eu deveria me assumir como gay e parar de fazer, segundo o dialeto dela, os prantos que fazia a jogar à bola.

Agora sou adulto e a discriminação tomou novas formas. Sou um homem homossexual, solteiro e se quiser me sentir confortável, tentar conhecer o meu homem ou apenas fazer sexo tenho que ir a um lugar de engate, ao Porto ou usar umas das aplicações digitais. Claro que há sempre opções e é isso que os teus amigos heterossexuais te vão dizer. Honestamente, por um dia gostava que vestissem a nossa pele. Escolham a roupa com cuidado, olhem com cuidado, falem com cuidado e amem com cuidado. Quando fizerem isso, irão dar valor à vossa liberdade heterossexual.

Até lá eu continuarei a contar as minhas estórias como um homem homossexual em Guimarães. Tenho quase a certeza que este sentimento aplica-se a qualquer cidade mais pequena, mas por enquanto é só aqui que posso fazer a diferença.

Afonso Reis

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