As crónicas de uma prostituta assassinada

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Era um domingo cinzento quando fui visitar o teu túmulo. Lembrei-me dos teus escarlates lábios e do teu etéreo olhar. Foste a primeira prostituta que eu conheci, mas em nenhum momento sentiste-te desconfortável com a tua profissão. E o mais belo do teu ser era evidente quando até o desconforto das pessoas dissuadias.

Antes desta tragédia acontecer éramos a mesma pessoa, partilhávamos cigarros, sonhos e cigarros. Prometi que iria eternizar a tua energia e que os teus pensamentos iriam causar um curto-circuito na sociedade. Quando te vi naquele caixão a ira apoderou-se de mim e naquele momento quis matar todos os homens deste mundo. Contudo sempre me disseste que por mais esquinas em que esperasses, por mais madrugada que fosse, o teu único medo era o julgamento que as mulheres faziam.

No meu coração ainda ecoam os murmúrios da tua sepultura. Quando nos sentamos para conversar naquele café junto à estrada, tu contaste-me quando nasceu o medo de andar nas ruas. Tudo começou naquela noite em que tua alma estava escura como ébano, dirigias-te para os teus aposentos depois de uma noite de trabalho. A brisa sussurava diferente, algo grotesco percorria cada pedra da calçada, e foi aí que viste outra sombra sem ser a tua. A partir do vislumbre dessa sombra, toda a areia da ampulheta se dissolveu. Alguém agarrou os teus cabelos e atirou-te para o meio da estrada com socos na cara, até desmaiares. Tudo passou mais rápido que o bater das asas de um morcego. Infelizmente lembras-te das palavras que ele te disse antes de fugir: “As putas não andam em passeios, as putas andam na estrada”.

A morte começou a embalar o dia até ao momento em que adormeceste eternamente. Prometi que a tua palavra iria lavrar até onde me fosse permitido. Contarei toda a tua história assim como tu contaste. Sempre me disseste para não rezar porque o divino estava na bondade. Desde que morreste rezo todos os dias a nenhum deus em específico, mas à bondade universal.

Margarida Malmequer

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