A rotina de um gay em Guimarães #3

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Considero-me um voyeur das redes sociais. Sempre atento aos comentários das crónicas que escrevo. Vi alguns argumentos, algumas palavras e atitudes que tornam ainda mais pertinente este novo testemunho.

Senti também muito amor e muita aceitação de pessoas mais velhas (sim, eu sou um stalker e vejo os vossos perfis). A todos que encorajam a individualidade e celebram a diversidade, o meu sincero obrigado. Vocês estão a contribuir para uma sociedade mais afável. Para os outros, eu não vou dar um sermão banhado de raciocínios lógicos que destruiria, rapidamente, a vossa opinião. A razão pela qual não o vou fazer é porque o vosso desconforto vem de um local muito escuro do vosso coração, e eu sou um apologista da multiplicação da luz.

Contudo, gostava de referir que ninguém é obrigado a viver o amor dentro de quatro paredes. E aos que dizem: “Gays tudo bem, bichas é que não”, bem, por onde começar. As pessoas são espectros e não há padrões de comportamento estipulados quando nascemos. Na verdade existem, mas foram criados. Afirmam também que só queremos atenção. Sim, queremos atenção para as desigualdades que ainda existem.

Depois de escrito o que me atormenta, vou contar-vos uma história. Junho é o mês do Orgulho Gay. A história de hoje relata o dia em que me atiraram para a estrada com o intuito de ser atropelado, porque os paneleiros precisam ser mortos. Era um dia banal de escola onde surgiu o boato que eu tinha praticado sexo oral com outro rapaz. Assim começou o meu Inferno. Só queria ir para casa, e assim o fiz mal a campainha tocou. No entanto, um rapaz da minha turma seguiu-me e começou a insultar-me. Até aqui tudo parecia um percurso normal, onde ele não viu qualquer tipo de resposta e deu-me um pontapé. Até pegar na minha cabeça, simular sexo oral e atirar-me para a estrada, segundo ele, para ser atropelado. Claro que o conselho directivo soube desta situação e obrigou-o a pedir-me desculpa. Só existem este tipo de soluções na educação. Nunca o odiei, sabia que era maltratado pelos pais e vivia com uma tia. Tinha muito ódio dentro dele. Esta é diferença entre aqueles que acreditam na mudança e na aceitação. Não respondemos a ódio, trabalhamos com amor.

Eu vejo esta geração mais nova a exibir a bandeira do arco-íris na Plataforma das Artes, um casal de lésbicas a beijarem-se na Praça de S. Tiago, um grupo de jovens a fazerem encontros LGBT para a comunidade vimaranense. Vocês são a luz que esta cidade precisa, eu vejo-vos a lutar e o meu peito enche-se de orgulhoso. Lutem sempre com luz, pois essa é a nossa maior vantagem. Vivam de acordo com as vossas ideologias. Amem fora de quatro paredes, usem glitter, unicórnios e tudo o que tiver ao vosso alcance para serem felizes.

Mando-vos a todos um grande abraço.

Chegou a altura de sair desta cidade. Volto para onde considero a minha casa. Um dia disse: “Aqui nasceu Guimarães e aqui morrerá este paneleiro”, e hei-de voltar. Até lá, amem-se muito. Quando voltar, volto a escrever.

E como a Mama Ru disse: “If you don’t love yourself how in the hell you gonna love somebody else”

(Quem perceber esta referência, sexta-feira à noite gritem na Oliveira “Miss Vanjie” e eu paga-vos um shot!)

Afonso Reis

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