O pensionista reformante

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Há dias fui convidado por um amigo já idoso para um almoço. O homem devia-me algumas gentilezas e atenções que fui tendo com ele ao longo dos anos e, sendo um perfeito cavalheiro, decidiu retribuir-me os desvelos que para com ele tive com a oferta de uma refeição.

Confesso que fiquei um pouco surpreendido com o convite uma vez que este meu amigo vivia em grande parte da sua magra pensão. Contudo cedo percebi a ocasião escolhida…Já em pleno almoço, contava-me o meu amigo pensionista (ou reformado, como queiram) que o novo governo ia aumentar as pensões e baixar o IVA nos restaurantes. Uma medida reformista! – dizia-me triunfante, enquanto olhava fixamente para um jovem cavalheiro, vestido com um fato lustroso, que se sentava duas mesas adiante de costas para nós. Não pude deixar de notar que dessa mesma mesa ouvia-se amiúde uma ou outra tirada política, claramente conservadora, dita em voz alta.

Conversa feita e almoço terminado chega a conta. Nesse momento o desalento foi conquistando a expressão do meu interlocutor que, incrédulo, olhava para os números. Olhe – atalhei eu – esta história do IVA não é como o amigo pensa, as bebidas não estão incluídas e com as garrafas de Calda Bordalesa que mandou vir…eu bem o avisei! Quando no fim do mês perceber que a sua reforma só aumentou 1,5% é que… Nem tive tempo de terminar a frase. Agarrado ao coração caía morto em cima da mesa aquele doce velhinho que tivera a amabilidade de me convidar para almoçar.

Duas mesas adiante, com um riso cínico, voltava-se para nós o tal jovem lustroso que – vim a saber mais tarde – ao ver um pensionista morto ali, em pleno restaurante, tinha dito entre dentes para a sua mesa: menos um a chular a segurança social! Aproximou-se já com o sorriso desfeito e de olhar perscrutante. Emudeceu. Empalideceu. Aquele velho que ali jazia era, afinal, seu pai.

Uma vez que não vinha prevenido para este inesperado desfecho, tive que pagar com o cartão de crédito e fui-me embora.

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