Marinheira de um porto só

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‘Sair sozinho de casa para a noite?’ Não me parece que vejam esta questão como um considerativo obstáculo. Reformulando a frase: ‘ Sair sozinha para a noite? ‘’, aí a situação muda de figura. Penso que qualquer mulher sabe que atrás desta decisão vem toda uma panóplia de acontecimentos com o peso de uma expedição a uma floresta amazónica e feroz.

Eram dez e meia da noite e depois de achar estúpido o meu debate interno e a minha insegurança juvenil, escorreguei para dentro do vestido básico, espevitei as pestanas e saí porta fora. Enquanto conduzia, apercebia- me que só o facto de me estar a convencer que era uma mulherzinha crescida e podia simplesmente beber um 1920 sozinha, já adivinhava algo muito errado com este ambiente onde cresci. Será Guimarães conservador?

Cheguei ao centro histórico mesmo na altura em que as famílias dos passeios de Verão e dos waffles abaunilhados recolhiam-se para suas casas. Passei por elas no caminho que estas percorriam para as suas carrinhas familiares e vi os olhares reprovadores de algumas mulheres bem (mal) casadas ao olharem para a minha vestimenta. Será que os maridos olharam e eu não reparei? Ao virar a rua para o local onde estava habituada a frequentar, ouvi meia dúzia de piropos agressivos e de cariz quase violento, que fluíam no ar com confiança e por mais que quisesse não conseguia deixar de pensar que estariam aliados à minha solidão. Ri-me, mal virei as costas desta ironia que embebia a situação.

Acelerei o passo até ao bar do costume. Sentei me no balcão e pedi o meu copo de água ardente envelhecido. Mediante o meu pedido, o barman quase que esfregou os olhos para ver senão me teria confundido com um cowboy catarrento. Após servir me com estranheza, relaxei da caminhada atribulada e ouvi as malhas do costume. Os conhecidos dos copos vieram- me cumprimentar com o entusiamo e calor do costume com a diferença de uma pergunta bastante peculiar: ‘O que estás aqui a fazer sozinha?’ Sorri calmamente e respondi: ‘Estou.’ Nesse momento, apercebi- me que esta saída de duas horas e pouco iria- me entreter e intrigar bastante. Após duas tretas, vem sempre à baila com um pouco de álcool à mistura, o tema sexo. Vi os machos falarem com catanhice e dureza sobre as mais diversas vertentes e todas as suas proezas dignas de pornstars veteranas. Simultaneamente observei as expressões das companheiras que de sorriso frouxo não opinavam sobre o assunto. Nessa altura, uma corajosa ao meu lado desbobina uma experiência pessoal sexual com entusiamo e um humor delicioso. Tudo riu e ouviu atentamente a peripécia da miúda, mas não demorou muitos segundos, até que a brava da oradora virou as costas, machos e fêmeas soltaram bocas viperinas para o ar como: ‘Esta gaja é uma fresca’, ‘Há que ter o mínimo de classe’, ou então a minha preferida, ‘ Gosta pouco, gosta!’. Bem, isto era no mínimo fascinante…

Depois de tropeçar nestes clichés tão óbvios, ao dirigir me para pagar a conta, ela foi entregue a um colega de trabalho que por lá ancorou a conversar comigo sobre as desavenças do dia-a-dia. Suspirei de intolerância e retirei lhe o papel das mãos, visto o pobre do rapaz já se sentir na obrigação de fazer a cortesia. Em jeito de gozo, paguei ao barman e repeti que a bagaçada tinha sido para mim. Saí ou tanto ou pouco exausta daquela noite! Mulheres…saírem sozinhas é mais exaustivo de que passarem a noite a bailarem em casa com as vossas amigas ou deprimirem sobre o gelado em tempos menstruais.

No dia seguinte, acordei com uma carrada de mensagens no telemóvel, entre as quais algumas exaltavam preocupação se eu estaria bem ou se teria terminado o namoro. Ora está claro, porque mais haveria de ter saído sozinha ontem à noite?

Ava

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